segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Injuriada?


Se eu só lhe fizesse o bem
Talvez fosse um vício a mais
Você me teria desprezo por fim
Porém não fui tão imprudente
E agora não há francamente
Motivo pra você me injuriar assim

Dinheiro não lhe emprestei
Favores nunca lhe fiz
Não alimentei o seu gênio ruim
Você nada está me devendo
Por isso, meu bem, não entendo
Porque anda agora falando de mim

Chico Buarque
Como desejamos ser desejados por quem desejamos!

sábado, 29 de dezembro de 2012

Confidência do Itabirano (adaptado)

Alguns anos vivi em Jundiaí.
Principalmente nasci em Jundiaí.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Jundiaí, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança jundiaiense.

De Jundiaí trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
[...]
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Jundiaí é apenas uma fotografia na parede
Mas como dói!

Adaptado de "Confidência do itabirano", do grande Drummond.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O Velho e o Moço


Deixo tudo assim
Não me importo em ver a idade em mim,

Sei do incômodo e ela tem razão
Quando vem dizer, que eu preciso sim
De todo o cuidado

Deixo tudo assim,
Não me acanho em ver
Vaidade em mim
Eu digo o que condiz.

Sei do escândalo
E eles têm razão
Quando vêm dizer
Que eu não sei medir
Nem tempo e nem medo

E se eu for
O primeiro a prever
E poder desistir
Do que for dar errado?

Ahhh
Ora, se não sou eu
Quem mais vai decidir
O que é bom pra mim?
Dispenso a previsão!

Ah, se o que eu sou
É também o que eu escolhi ser
Aceito a condição

Vou levando assim
Que o acaso é amigo
Do meu coração
Quando fala comigo,
Quando eu sei ouvir
A gente tem mania de se culpar sempre, mesmo quando não pode mudar a situação.

Segurando o choro por sentir. Por sentir triste, por sentir culpada de não querer passar o resto das férias em Jundiaí. Por não poder mudar e não querer ficar assistindo o que não posso mudar.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada
O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes
Quando pais me encaram, se sorrio ironicamente com os olhos, penso "Você não gosta se mim, mas sua filha gosta. Ela gosta do tango, do dengo, do mengo, do mingo e de costa. Ela pega e me pisca, belisca, me tisca, me arrisca e me enrosca."