terça-feira, 18 de setembro de 2012

NARCISISMO –II – O mal estar de uma época


O narcisista não tem nada em si que o faça pensar em si mesmo como aceitável pelo grupo social. Ele não existe, apenas vê o reflexo. E os “outros” são o espelho para ele. Se não é notado quando passa, deixa de existir, e em deixando de existir está morto. É assim que se sente, mas atribui o abandono aos outros. Por não ter nada dentro, é incapaz de criar. Só pode repassar, só reflete.

Para outros nem chega a ser o próprio corpo. São as roupas, geralmente de “griffe”, já que todos se vestem de uma única forma, pobre dele se não fizer o mesmo. E assim vemos aos sábados no Shopping Center o espetáculo dos adolescentes vestidos de uma mesma forma e falando um mesmo dialeto.

Outras vezes o carro, o apartamento no condomínio de luxo, a ostentação quantas vezes nem suportada pela conta bancária!

O pior é que a sociedade capitalista se aproveita da fraqueza do indivíduo para engordar seus faturamentos. Há moda para crianças, pré-adolescentes, adolescentes, e não tem fim a busca por novos consumidores.

O que isto nos diz, dentro da visão do Narcisismo?

Não é bem o bebê que se sente feliz dentro de roupas de moda. Uma criança fica feliz bem alimentada, seca na outra extremidade e preenchida em suas necessidades afetivas.

A roupa de marca não lhe diz nada, muito menos o brinquedo caro. Quantas vezes a criança brinca mais com a caixa onde veio o brinquedo que com o próprio?

Mas diz muito para a mãe! Os interesses do bebê não estão em pauta. Ela pensa ser boa mãe. No entanto o que faz é exibir o filho.

Estamos ou não criando psicóticos?

Revendo situações narcísicas, pessoas narcisistas, parece-me que o mal é, como diz Lowen, uma questão cultural de nossa época. Por ser uma questão cultural afeta a sociedade. Torna-se contagiosa.

Todos sentimos, coletivamente, esta frieza que esmaga a sociedade atual. O medo do abandono causado pelo desemprego, o medo gerado pela insegurança física, a alta competitividade, são preços a pagar pelo progresso.

Uma posição particular que defendo em relação ao narcisismo, é que ele seja um mecanismo de defesa do ego, como já coloquei anteriormente. Ou um mecanismo de prevenção que o ego usaria, já tentando antecipadamente se defender de tudo e de todos.

O que o psicanalista pode dizer diante de tal quadro? Pode apenas ajudar seu paciente a viver no mundo, e não contra este.

Se por um lado o narcisista pode passar a vida toda tentando conseguir uma imagem, jamais passa-lhe pela cabeça o quanto de dor e desapontamento ele causa aos outros.

Entranhado em sua própria angústia, que é a de não se conhecer, de não saber com certeza quem é, arrasta ao desespero quem dele se aproxima buscando afeto.

Narciso não sabe amar.

Neste aspecto jamais cresceu, é apenas a criança mal saída do útero, esperando receber e sempre achando que nunca lhe foi dado nada.

Narciso só sabe esperar que admirem sua beleza, que apreciem sua arrogância, e não tentem arranhar o fraco polimento que mal lhe cobre a superfície. Não tem o que dar, não sabe sequer que deve fazê-lo.

Alexander Lowen diz:

“Nossa época é caracterizada por uma tendência a transcender limites e o desejo de negá-los. Limites existem, e factualmente vamos encontrá-los”.

Em seu maravilhoso livro “Narcisismo, negando o verdadeiro self”, Lowen diz que “a rejeição dos limites sociais, expressos em moral ou códigos de comportamento, promove a atitude narcisista”.

Mais ainda:

“Quando uma estrutura se destrói, dentro de uma sociedade, o caos se desenvolve, criando-se uma atmosfera de irrealidade.”

A quebra da estrutura social manifesta na desintegração da família, na falta de respeito pelas autoridades, e no colapso dos princípios morais destrói ligações, remove limites, e leva à negação dos sentimentos e à perda do self.

Na cultura atual isto pode ser descrito até mesmo como estilo de vida.

Afinal somos ensinados a sermos livres para criar nosso estilo de vida e nossa própria personalidade. Contudo, se uma casa sem moradores não é um lar, um estilo de vida sem um self não é uma pessoa.

A ausência de limites atualmente é um produto das mudanças extremas ocorridas após a 2ª Guerra Mundial, muito em função de tecnologias criadas durante e após a guerra.

Contudo para os indivíduos equilibrados, as mudanças servem para que se tenha mais conforto. Já para outros a tecnologia substituiu completamente o senso de valores.

Para muitos, nem adianta perguntar o que é o senso de valores. É algo que ficou perdido no tempo.

Ouso questionar onde estará o senso comum, o respeito, o afeto, as pequenas e grandes coisas que se ensinava no lar e na escola. Esta sociedade brutal, herdeira do consumismo, filha da arrogância, engoliu-as.

Não há porque pensar nos costumes, na herança das civilizações. Tudo foi destruído. O cientista político Lasch alertou o mundo.
Mas Lasch não foi derrotista em seu alerta. O mundo nunca mais foi o mesmo após seu brado. Não acreditaram. Nem trinta anos são passados desde que seu livro foi editado, e a profecia está aí. Realizada.

Lasch avisou ao mundo sobre o risco. Foi contestado. O mundo pagou o preço do descrédito.

Nada resta a fazer agora senão reconstruir.

Como um país destruído que reclama sua reconstrução, a sociedade como um todo precisa ser refeita.

Ciência, política, sociedade, ser. Tudo está ainda por merecer conserto.

E então penso em Narciso, rindo para si mesmo, uma imagem movendo-se com o mover das águas, e sinto que hoje, de uma ou outra forma, todos somos Narcisos, refletidos de um modo deformado, numa imensidão de água suja.


OBS: não consegui achar o autor.

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