sábado, 21 de julho de 2012
A família que a gente escolhe
Conheci o Fera quando recém entrei na UJS, oficialmente em março de 2011. Ele é camarada de partido e porteiro do sindicato dos metalúrgicos (onde sempre fazemos nossos eventos, plenárias e reuniões, nossa casa), nosso guardião.
O Fera é um dos caras mais inteligentes, mais sábios (e olha que essas duas qualidades são difíceis de encontrar numa só pessoa...) , mais vividos e com um dos corações mais bonitos que já vi. Ele me conheceu na época que eu recém me mudei pra Caxias e que eu voltava todo dia pra casa a pé e enquanto o povo reclamava de andar de ônibus, eu ficava feliz quando tinha o dinheiro da passagem. Esteve presente em situações de grande dúvida, tensão, mas também das grandes vibrações pelas vitórias da UJS. Foi o cara do partido que mais acompanhou a trajetória dos jovens do PC do B que militam na UJS, pelo menos desde que comecei a fazer parte dela.
Sempre soube que podia contar com ele, conversar, desabafar. Perdi as contas de quantas vezes sentei naquele sindicato e desabafei pra ele todas as preocupações, inquietações, inseguranças, incompreensões. Ele sempre me ouviu com todo o tempo do mundo, orientando da melhor forma e me fazendo sempre continuar, não jogar a toalha por pior que fosse o momento. Em uma dessas vezes, creio que na pior delas, que durou meses, alguns conflitos me fizeram desanimar, pensar em desistir - e muitos desistiram...mas por pessoas como o Fera (e inclusive ele) me lembrarem da importância de não entregar os pontos, resisti...sem saber o que aconteceria comigo, com a entidade, com cada militante, mas permaneci. E fui indicada a presidência da UJS. Valeu a pena ficar, mas não consegui ver isso pelos meus olhos todo o tempo.
Eu e o Fera ficamos muito amigos, mas ele é mais que um amigo pra mim, é como meu pai. Um dia desses me apresentei pra um camarada e ele me perguntou se sou eu a filha do Fera. E sim, é o pai que eu escolhi ter.
Lembro-me de quando no ano passado, depois de uma plenária, a nossa chapa ao DCE foi para um bar no Rio Branco e ele foi conosco. No caminho encontramos uns skinheads que criaram confusão com um camarada nosso, foi o Fera quem ajudou a contornar a situação e acalmou a galera. No final deu tudo certo, passamos todos uma noite bem legal no São Patrício.
Acho que foi nessa noite que contei a ele sobre minha família, minha mãe...e sobre meu pai, nossa relação e ao que levou a gente a não conviver. A história de família dele é muito parecida com a minha, só que em papéis diferentes. Ele foi o pai que esteve ausente, embora com motivos diferentes dos do meu pai. Ele foi o pai que não conseguiu se acertar com a mãe e saiu de casa. Eu fui a filha que os pais também brigavam muito, que o pai tinha vícios que não o permitiam viver em família, até que ele saiu de casa e...virou a página.
Não culpo meu pai. Hoje vejo que os vícios transformam quem é refém deles, não há culpados, não se questiona de quem é a culpa.
O Fera tem uma filha, a Camila. Conheci-a há algum tempo antes de conhecê-la. Sim, conhecia-a desde antes pela compaixão. Não a compaixão derivada das línguas do latim, que com o prefixo com — e a raiz passio, que significa “sofrimento”. É a compaixão das línguas germânicas, onde o significado da palavra assume um sentido de "co-sentimento", é compartilhar da mesma situação, da mesma vivência. Ele comentou comigo naquele dia que a Camila não entendia muito bem o fato de ele ter saído de casa. Eu entendia ele e entendia ela.
Apesar de não morarem mais juntos e do pouco contato, ele sempre mencionava ela, com muitos elogios. Contou que ela começou a participar do movimento secundarista, mas que havia se decepcionado com algumas coisas - e ótimo sinal que tenha se indignado com o que se indignou. Mais pessoas me falavam muito bem da Camila. Um dia adicionei-a no Facebook. Sempre curtia (literalmente também haha) as postagens dela, via uma menina muito coerente, sensata, capaz de ver o que pouca gente vê e - o mais importante - com muita vontade de mudar as coisas. Cresceu vendo a militância do Fera, um exemplo ali dentro da casa. A maioria das pessoas descobre que tem algo errado com o mundo em que vivemos depois que cresce e, depois de algum tempo algumas destas descobrem o quê. A Camila é uma das pessoas que cresceu sabendo que havia algo errado e sabendo o quê.
Chamava-a para as atividades, para os cursos, para os congressos, fazia o convite pra levar o namorado também, sempre fiz muita questão que fosse e por isso eu insistia, mas ela nunca foi. Mesmo assim a gente conversava, compartilhava das mesmas ideias, indignações e vontade de mudar as coisas. Alguém nos aproximou e um dia a Camila veio desabafar comigo que queria militar, mas não via espaço, inclusive por ser jovem. O mundo sempre encara ser jovem como um fato negativo. Disse pra ela se dar uma chance de participar de uma plenária da UJS, onde só jovens fazem parte e onde compartilhamos das mesmas vontades, sonhos e também descontentamentos, angústias. Ela foi e fez ótima participação, desde lá a Camila tem estado conosco, pegado junto e ajudado. Espero que ela permaneça e que mude muita coisa, com todo o potencial que tem!
O Fera continua sendo meu paizão, que eu escolhi pra fazer parte da minha família. Pai quando me ouve e me aconselha, que quando me vê triste conversa comigo até eu melhorar, que quando vou embora de noite do sindicato diz pra eu tomar cuidado na rua e não ficar andando por aí e ir direto pra casa, quando chego depois do trabalho no sindi louca de fome e ele já sabe e me faz comer.
A Camila além de camarada tá se tornando minha amiga, o que me deixa muito feliz.
É muito bom encontrar na vida pais e filhos tão valiosos como o Fera e a Camila, ainda mais quando passam a fazer parte da nossa.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário