domingo, 22 de janeiro de 2012

Einmal ist keinmal

"Olhando por sobre o pátio para as paredes sujas, Tomas percebeu que não tinha a menor idéia se aquilo era histeria ou amor.
E afligiu-se por, numa situação na qual um homem de verdade saberia de imediato como agir, estar vacilando e privando de seu sentido os momentos mais belos que já vivera (ajoelhado à beira da cama, pensando que não sobreviveria se ela morresse).
Irritou-se consigo próprio, até perceber que, na verdade, era bastante natural que não soubesse o que queria.
Jamais nos é possível saber o que queremos, pois, vivendo uma única vida, não podemos compará-la a nossas vidas anteriores, ou aperfeiçoá-la em vidas futuras.
Era melhor ficar com Teresa ou sozinho?
Não há como testar qual decisão é a melhor, porque não há base para comparação. Vivemos as coisas conforme elas se apresentam, desavisados, feito um ator entrando frio em cena. E de que vale a vida, se o primeiro ensaio para ela é ela própria? É por isso que a vida é sempre como um esboço. Não, "esboço" não é bem a palavra, porque um esboço constitui-se das linhas gerais de alguma coisa, a base de uma pintura, ao passo que esse esboço que é nossa vida é um esboço de coisa alguma, linhas gerais de pintura nenhuma.
Einmal ist keinmal, Tomas diz a si mesmo. O que só acontece uma vez, afirma o provérbio alemão, melhor seria que não tivesse acontecido. Se temos uma única vida para viver, melhor seria não ter vivido. "

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera

Nenhum comentário:

Postar um comentário